18 de outubro de 2010

Retrospectiva literária e errata.

Aos 9 anos li o meu primeiro livro. Sim, já havia lido esses livros com ilustrações, os infantis: A mochila que pesava demais, que se bem me lembro, li mais de cinquenta vezes e peguei emprestado da biblioteca escolar pra não mais devolver, O joelho Juvenal, entre outros. Mas aos nove anos, li meu primeiro pocket book. O sobradinho dos pardais. Lembro-me bem da idade, pois foi a "tia Abigail" que levou a literatura àquela turma de terceiro ano. Era simples, e do enredo não sei mais nada. Mas gostei de ler.
O segundo escolhido, por recomendação de meu pai, foi Meu pé de laranja lima, do qual também não lembro nada, exceto que alguém abraçava uma árvore. Pudera, passaram-se onze anos desde então e em torno de trezentas outras obras literárias. Aos onze, fui para um colégio maior, um dos maiores da minha cidade dentre os colégios públicos, e consequentemente, uma biblioteca também maior. Passei tantas horas naquela biblioteca que as próprias bibliotecárias, Mercedes se não me engano, e a outra nao me lembro o nome, pediam-me que arrumasse outras atividades além de ler senão teriam que dividir seus salários comigo. Nos dois primeiros anos, na biblioteca escolar, conheci A coleção Vagalume, que até hoje recomendo a alunos e conhecidos que gostem de ler e estejam começando. Mas eu sempre fui de me achar madura, culta e preparada. Ao acabar a coleção vagalume, cansada de só ouvir falar, quis conhecer os imortais. Peguei Machado de Assis. Rirão, se já leram - ou tentaram ler - Esaú e Jacó. Se não leram ou não tentaram, vou explicar: Imagine uma criança de onze, doze anos tentando ler um livro escrito em mil oitocentos e alguma coisa. Ou, como escrevia Machado, "cousa". Não entendi nada, e parei de ler. De ler Machado. Pulei pra outros mais simples, como Harry Potter. Riam se acharem graça, mas JK Rowling é uma das minhas escritoras favoritas e no aspecto literário eu tenho alguma bagagem. Então, aos 13, após ler algumas dezenas, conheci a Biblioteca Raul de Leoni, pra quem não sabe, a Biblioteca Municipal de Volta Redonda. E entre os anos de 2003 e 2006 eu li outros duzentos livros. Ou melhor, uns 180, e alguns repeti algumas vezes. E nessa nova era literária de minha vida conheci ninguém menos que Dan Brown, Harper Lee, Agatha Christie, Aldous Huxley, Oscar Wilde, Charles Dickens, Sir Arthur Conan Doyle, Sidney Sheldon, Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Bandeira, Manoel Caetano Bandeira de Melo, Aluísio Azevedo, Érico Veríssimo, Zíbia Gasparetto, Jostein Gaarder, Marcus Zusak e meus amores: Vinícius de Moraes e William Shakespeare. Conheci outros nomes, não menos importantes mas menos notáveis a meu ver. Voltei a me encontrar com Machado em "Dom Casmurro" e entendi alguma 'cousa', mas não me dei o trabalho de realmente conhecê-lo. E agora, aos vinte anos, não preparada, mas mais madura [i]literalmente[/i] se me permite o trocadilho, voltei a Esaú e Jacó. E resolvi escrever pra me corrigir. Ao longo desses 9 anos em que abandonei Machado e os gêmeos que brigavam no ventre*, dizia que Machado era maçante, repetitivo e escrevia muito mais 'cousas' irrelevantes do que linhas que valiam sua leitura. E a errata vem agora: Machado de Assis é, para mim, o melhor escritor Brasileiro. Não melhor que Vinícius, pois as áreas são outras. Machado conhece as palavras. E brinca com elas. Ele é sarcástico, de um humor inteligente implícito em suas linhas. Machado é comunicador. Machado é apaixonante. Ele é como um curso de mestrado. Você não pode ser mestre se não for graduado. Não pode ser graduado se não for alfabetizado. E Machado de Assis é, sobretudo, escritor pra quem sabe ler.


Só pra concluir: Você, professor de ensino médio e/ou fundamental, que não recomendou obras simples a seus alunos, que não lhes apresentou a literatura dita infanto-juvenil, mas que eu classificaria como INICIANTE, como num videogame - pois não importa a idade do leitor, importa a bagagem literária dele - não deveria recomendar literatura dita adulta, que eu classificaria como Master ou Expert. Machado de Assis é o 'chefão' da literatura nacional. Tratemo-lo com o devido respeito. #FicaaDica

5 de outubro de 2010

Pelo direito de amar

Vou começar esse texto com informações importantes:
Eu sou a Lígia. Eu sou morena, nasci assim. Posso tentar mudar, pintar o cabelo de loiro. Mas a raiz sempre vai ser preta. Ou branca, conforme o tempo passar.
Eu sou a Lígia. Eu tenho o nariz arrebitado, nasci assim. Posso tentar mudar, fazer plástica. Mas vai ficar artificial e diferente. Talvez eu pareça outra pessoa fazendo isso.
Eu sou a Lígia. Eu sou gay, nasci assim. Posso tentar mudar, ficar com um cara. Mas ele não vai ser feliz. Nem eu. Eu posso amá-lo, conforme o tempo passar. Mas vai ser artificial e diferente.

Eu tô lendo um livro chamado "O terceiro travesseiro". É a história de um garoto que também é gay, a forma como ele descobre o amor por uma pessoa do mesmo sexo, a luta interna e a luta contra os preconceitos do mundo e principalmente da família. E, coincidentemente ou não, neste último final de semana, uma menina de 16 anos, homossexual, cometeu suicídio.
Sim, uma menina de 16 anos cometeu suicídio. Sua família descobriu e não aceitou. Trancaram-na em casa, e ela, infeliz, não aguentou.
Alguns dizem que é falta de Deus, outros que é doença, outros ainda que são demônios e espíritos obsessores que possuem a pessoa.
E eu digo diferente.

Você sabe o que é amor?
Sim, Deus é amor. Amor, o sentimento mais puro. O tesouro do ser humano. O ápice da alegria. O sonho de qualquer um.
Como, em qualquer lugar do mundo, o amor pode ser FALTA DE DEUS?
O sentimento de querer bem. A alegria que esse sentimento traz.
Amor é felicidade, amor é amadurecimento, amor é paz.
Eu tenho um potencial infinito pra amar uma mulher. Amar sua delicadeza, seus sentimentos confusos e intensos, a voz que é doce mesmo com raiva, mesmo gritando e a infantilidade madura, a sabedoria ingênua, o jeito de falar calando. Eu tenho potencial pra amar suas lágrimas, sim... Eu beberia as lágrimas da mulher que amo. Beberia, e bebo, sua saliva, seu suor. Amo-a tanto que eu queria que o mundo a conhecesse. Ela é, no meu mundo, o que há de melhor. Ela seria como uma bênção pro Universo, como foi pra mim. E ao mesmo tempo, queria guardá-la dentro do meu peito, pra protegê-la de todo o mal, de toda a dor. Pois dentro de mim ela não conheceria a raiva, a decepção, a ganância. Só o amor.
Agora me diz, como um sentimento assim pode ser pecado? Como alguém pode dizer que isso é coisa de quem está afastado, endemoniado? Eu digo que não. Uma pessoa sem Deus não poderia sentir algo assim, não caberia algo assim em seu coração.
Eu fico mais que triste, fico enfurecida por saber que ainda há pessoas limitadas que não aceitem, e mais: condenem um sentimento assim.
Nunca questionei a criação, nunca quis ser homem. Nunca quis ser alguém diferente de mim. Mas eu seria, talvez. Pra amar sem pudor, sem limites, sem restrição. Sem o mundo dizer que o que eu sinto é errado, que meu namoro é pecado, que meu amor é pagão.
Uma vida sem o direito de amar? Só tendo o direito de fingir, enganar? Vivendo um amor de mentira, um amor de ilusão?
Você ia querer isso pra você? Bem, eu também não!
Tem gente morrendo por preconceito, culpa de gente que julga ter um direito qualquer de condenação.
É esse o meu grito de revolta, a minha rebeldia, a minha insatisfação.
Olha pra dentro antes de olhar pro lado. Na verdade, pecado é matar um irmão.

"Somos homens pra saber o que é melhor pra nós
O desejo a nos punir só porque somos iguais
A idade média é aqui. Mesmo que me arranquem o sexo, minha honra, meu prazer
te amar eu ousaria.
E você, o que fará, se esse orgulho nos perder?"